terça-feira, 6 de abril de 2010

Qual a Juventude que queremos?

 Qual a Juventude que queremos?
Envolto em tamanhas desigualdades sociais, políticas e educacionais que compõem o cenário real da Sociedade brasileira na segunda metade do século vinte, evidencia-se a exemplar e respeitável classe estudantil.
A rigor, esse grupo se auto organizava e dominava o cenário, mobilizando todas as classes, opondo-se às arbitrariedades dos governos conservadores e/ou dominantes até os governos militares sem qualquer receio ou desencorajamento mesmo sofrendo diversas opressões das mais variadas formas: perseguição política, as extradições, torturas, anulação de direitos até mesmo à voz e imensas agressões. Era uma época em que se buscava não só liberdades individuais contra a escravidão da ditadura e a prepotência dos governantes.
Ademais, é importante dissociarmos de toda e qualquer forma de movimento representativo, estudantil ou não, a denominação preconceituosa de vandalismo ou baderna. Reserva-se a todos nós o direito de opor, criticar, opinar, atuar e protagonizar em prol de uma transformação da realidade em nosso entorno.
Ação como a dos integrantes da “passeata dos cem mil”, dos “caras pintadas”, dos grêmios, centros acadêmicos e dos diretórios centrais de estudantes e entidades diversas, deixaram uma herança louvável que atualmente é mais utilizada como conhecimento ou fato histórico do que instrumento de propagação para o continuado protagonismo juvenil.
Esse é um lado da questão que agora passamos a comentar, que nos impõem uma imensa responsabilidade!
A vantagem de termos um passado sem medos, infelizmente não ajuda muito a combater a “nova política de dominação da massa”, até mesmo da juventude que hoje se torna cúmplice de um sistema social conformador e pacificador, que se sujeita a um sistema competitivo, exaltador da mera estabilidade no mercado de trabalho, a estabilidade financeira, o consumismo, o individualismo, redutor da reflexão por parte dessas classes, do seu verdadeiro valor e do seu papel como cidadãos.
Parecemos voltar ao pensamento pedagógico renascentista como quando se defendia uma educação individualizada, o auto governo do jovem aluno à competição.
Mas o que pensar de tudo isso? A juventude continua a mesma com seus medos, dúvidas e culpas. Mas por que a bravura, a força e a coragem parecem características tão distantes de nossa juventude atual? Onde está o mal?
As denúncias ocorrentes sobre o envolvimento de políticos em escândalos de corrupção deram muito que falar e criaram sim certa desconfiança que estimula a cada dia a nos calarmos diante de um assunto tão importante que é a política. Mas significa que a culpa é da falta de ética na política? Se felizmente o homem é livre para definir sua conduta (e sofrer as conseqüências desta) pode optar por ser corrupto a qualquer momento. É preciso lembrar que a política é feita por seres humanos como nós. Então, é possível sonhar com um mundo livre deste mal?
Contudo, a corrupção é um mal tão grande quanto a injustiça social e/ou a proliferação da violência urbana, mas, não é a causa destes e sim, componente de um conjunto de males que atuam ao longo de nossa história, construindo nossa civilização.
Então, a “culpa” é da civilização? Não ganharemos muito se condenarmos o processo civilizatório. Homens e mulheres poderiam permanecer humanos e não praticar o mal? Aliás, uma civilização do “bem” total seria algo mais que uma utopia hipócrita?
Então a “culpa” é da educação? O Brasil não estava preparado, com o advento da democracia, no campo educacional?
Ora, desde muito cedo se percebe uma diferenciação entre o povo de um lado, e políticos, de outro, passando uma concepção de política que favoreceu a prática da corrupção: a idéia de que a política e seus negócios são “coisas só de político”, propagando os chamados “analfabetos políticos” que deixam de ficar atentos para cuidar e preservar o bem público que é tanto deles, quanto meu, é nosso. A boa idéia seria que cada um de nós pensasse no bem comum.
Mas na pratica é bem diferente. Primeiro parece deturpado o conceito de cidadão: os direitos do “cidadão” são os direitos do consumidor; depois, cada jovem permanece preocupado mais em obter seu próprio sonho de consumo do que em pensar no bem comum.
Estamos conduzidos pela “nova política de dominação de massa”, como disse anteriormente. Preocupados demais com o nosso pão de cada dia, em passar no vestibular ou com a marca do próximo celular novo. Como podemos nos manter atentos à coisa pública diante dessa “cultura do individualismo?” Dar prioridade aos interesses particulares contra interesses coletivos, isso sim, não é um ato antiético?
Mas alguns podem estar se perguntando: mas que mal há em querer o bem somente para mim, meus pais, meus irmãos, sem se importar com os outros? Todo ato de injustiça é um ato de corrupção.
Somos injustos quando achamos que a pessoa ao lado merece menos respeito que nós ou que os outros. O preconceito, a discriminação, a desigualdade também são um ato de corrupção. Assim, a corrupção não é um mal exclusivo de quem faz política.
A decisão de não se importar com os outros pode estar em qualquer uma das relações humanas, desde as maiores, como uma campanha eleitoral, às menores, como ceder ou não o lugar no ônibus para alguém diferente de nós, mesmo tendo consciência que (aquele) está salvaguardado por lei.
A reflexão que apresento a todos não é a da fragilidade na ação política estudantil que infelizmente é produto da liberdade humana, mas, que se não houver, por parte de cada um de nós participação constante, interesse incansável nos negócios públicos, sempre haverá quem decida em nosso lugar e quase nunca a nosso favor. Devo dizer também que nenhum de nós sozinho acabará com a corrupção.
O desafio, portanto, não é o da simples preparação do jovem apto para o vestibular ou para uma carreira profissional bem remunerada, mas o do ser completo e do ser cidadão integrante do processo de transformação social.
O Estado, como percebemos, continua ausente no exercício de uma função que lhe é primordial: educar para a cidadania. O que nós jovens precisamos perceber é que cada contribuição de hoje é significativa para o retorno que teremos com esse esforço em nossa formação como indivíduos. E a Sociedade como um todo se beneficiará mais ainda.
Geysla Viana

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