segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Mapeamento etnográfico dá importante passo para inclusão - Alagoas

 

Quilombolas - Alagoas

Mapeamento etnográfico dá importante passo para inclusão

Com iniciativa, surgem novos horizontes para as comunidades reconhecidas, que podem participar de políticas públicas específicas e melhorar sua qualidade de vida

Nicolas Braga

Sandreana Melo Sandreana Melo
Mapeamento etnográfico garante acesso a políticas públicas destinadas a remanescentes de quilombos

A Gerência do Núcleo de Quilombolas deu importantíssimo passo para ajudar os remanescentes quilombolas a sair da condição de excluídos, com a conclusão do Mapeamento Etnográfico. Numa iniciativa inédita no Brasil, foram visitadas 45 comunidades nos últimos 2 anos. O ponto alto desse trabalho foi a entrega de 25 certificados de reconhecimento pela Fundação Cultural Palmares, no dia 18 de novembro de 2009, durante a semana da Consciência Negra, em solenidade ocorrida no Palácio República dos Palmares.
Com mais de 300 páginas que descrevem os aspectos sociais, culturais e econômicos de cada uma das comunidades visitadas, o mapeamento foi idealizado para ser uma ferramenta do processo de certificação das comunidades pela Fundação Cultural Palmares.
“Com o reconhecimento oficial da comunidade como remanescente de povos quilombolas, é mais fácil conseguir recursos para aplicação em projetos de melhoria de vida, entre eles construção de casas, estradas de acesso, postos de saúde, escolas e ampliação de programas sociais do governo federal”, explica Berenita Melo, gerente do Núcleo de Quilombolas do Iteral.
Para elaborar o mapeamento e sensibilizar os moradores sobre a importância da certificação, foi criada uma equipe coordenado por Berenita Melo, sob orientação do historiador Dirceu Lindoso e composta pelo antropólogo Christiano Barros e a cientista social Sandreana Melo. “Para que uma comunidade seja reconhecida oficialmente como remanescente de quilombo, é necessário que a iniciativa parta dela própria; um estudo ou a determinação de pessoas de fora não é suficiente”, explica a gerente do Núcleo Quilombola do Iteral.
Além do mapeamento, foi criado um acervo com mais de 3 mil fotografias onde estão retratados os remanescentes, suas casas, seus costumes e modo de vida. Estima-se que em Alagoas existam mais de 70 comunidades remanescentes de quilombos, mas apenas 23 eram certificadas oficialmente.
Segundo o diretor presidente do Iteral, Geraldo de Majella, a entrega dos certificados foi um passo importantíssimo que abre novos horizontes para as comunidades quilombolas, sendo um deles a participação em políticas públicas específicas destinadas aos remanescentes quilombolas.
“O Iteral trabalha para ajudar ao máximo as comunidades quilombolas para que elas saiam da condição de excluídas em que se encontram há séculos. Por isso, nós estamos trabalhando na confecção do mapa étnico cultural das comunidades remanescentes de quilombo de Alagoas. A primeira parte já foi concluída e resultou no reconhecimento de 25 comunidades e já concluímos as visitas de campo da segunda etapa e estamos no estágio de elaboração do relatório”, afirma o diretor.
De acordo com Majella, a intenção da autarquia é tornar público tanto o mapeamento em si como o acervo de imagens que foi criado. A princípio, esse material estará ao alcance do público no próprio site da autarquia, mas será estendido às bibliotecas públicas do Estado.
A gerente do Núcleo Quilombola do Iteral acrescentou que nessa segunda etapa do mapeamento também foram incluídas as vinte comunidades quilombolas alagoanas já certificadas devido à inexistência de informações sobre elas.
Iniciativa tem reconhecimento nacional
Reconhecendo o esforço desempenhado pela gerência do Núcleo Quilombola do Iteral, o presidente da Fundação Cultural Palmares, Zulu Araújo, parabenizou a parceria entre os governos do Estado e federal. “Os quilombos são a representação simbólica e física da maior tragédia da história brasileira. Em Alagoas, tivemos o maior exemplo de resistência e também de massacre com a Serra da Barriga. O que o governo estadual e a Fundação Cultural Palmares, como órgão executor, têm feito, é reconhecer um direito que deveria ter sido reconhecido desde que o 1° negro pisou aqui”, afirma Zulu Araújo.
Para o remanescente Manoel Oliveira, mais conhecido como Bié, os quilombolas esperam mais respeito e que a qualidade de vida deles melhore com o decorrer do tempo. Ele destaca a infraestrutura, educação e saúde como as áreas que precisam de ações mais imediatas.
Nesse contexto, o Programa Brasil Alfabetizado, do Ministério da Educação, e que em Alagoas conta com o apoio da Secretaria de Estado da Educação e do Esporte, além do próprio Iteral, ampliou o número de salas em comunidades quilombolas. Hoje são 52 turmas em 31 comunidades certificadas e não certificadas de 18 municípios.
ALBINISMO — Quanto à saúde, no fim de outubro o mapeamento genético da comunidade de Filus foi concluído e sua população está sendo acompanhada por médicos a fim de prevenir e monitorar possíveis doenças provocadas em decorrência do albinismo. Esse trabaho está sendo feito pelo Hospital Universitário sob acompanhamento dos médicos Fernando Gomes, Cláudio Cavalcante e Issabela Monlle, com um importante apoio da ouvidora Márcia Rabello.

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