Eu, como tantos que nascem por aqui, tenho com Maceió uma relação que vai, em gradações diversas, do amor ao ódio.
Penso que a capital alagoana se assemelha a maioria das pessoas muito bonitas – e que sabem que são bonitas: descuidam de outras virtudes, que lhe seriam essenciais.
Eis que em Maceió nasceu e cresceu um dos maiores compositores brasileiros de todos os tempos. Ele, Djavan, é a tradução mais perfeita do que os modernistas de 1922 pregavam: receber todas as influências estrangeiras possíveis e transformá-las, com talento, no mais autêntico produto nacional.
A isso, eles – os modernistas – chamariam de antropofagia cultural, uma tarefa só possível a poucos, muito poucos. Djavan conseguiu o que só Tom Jobim havia alcançado antes. Faz uma música internacional com a melhor marca da MPB.
Foi com agradável perplexidade que ouvi, ontem, a voz do artista na boa propaganda sobre o IPTU de Maceió. O inesperado trouxe uma bela surpresa.
Outra veio em seguida: quis saber como ele havia aceitado o convite para a publicidade, e soube bem mais.
O contato foi feito através de amigos comuns e o "pequeno cachê" terá uma destinação grande: Djavan resolveu doá-lo a uma instituição de caridade, aqui mesmo, em Maceió.
Ele não queria que esta última informação fosse divulgada. Cometo esta "inconfidência" como manifestação da minha admiração pelo artista e pelo homem.
Nelma Nunes
Alagoas
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